(UM PESO NA CONSCIÊNCIA)




Desde que fiquei cadeirante, há dez anos, me questiono se era do tipo de pessoa que, por motivos diversos, desrespeitava os deficientes sejam eles físicos, auditivos, visuais ou mentais. A resposta sempre me vem rápido: NÃO. Nunca fiz nada das coisas que hoje eu abomino por estar do outro lado, o do deficiente. Mas será que não fiz “nem por um minutinho”?
Noutro dia, tomei um lanche com companhia agradável no shopping Eldorado e pedi para irmos ao banheiro pois já estava um pouco apertada. Chegando no banheiro de deficientes (que também é fraldário), percebi a porta trancada e, mesmo apertada, resolvi esperar. “Se sair alguma pessoa andando daí, vou ficar muito puta!”, disse. Bati na porta e ninguém respondeu.
Alguns minutos depois, sai um jovem de uns vinte e poucos anos andando, todo bonitinho. Nossa, que falta de respeito! Fiquei indignada e falei alto: “VOCÊ ESTÁ DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA NÉ?” Ele, então, se explicou. Blá, blá, blá… Não ouvi, estava mesmo apertada e entrei rapidamente no banheiro. Antes de tirar a calça, percebi que o apressadinho esquecera sua carteira em cima do porta papel higiênico. Que azar o dele, sorri.
Encontrei o moço desrespeitoso abordando um segurança, e perguntando onde era o Achados e perdidos do shopping. Apareci com sua carteira na mão. Ele, então, explicou que só tem vinte minutos de intervalo e que nunca fez isso e tal. Então, pergunto a vocês: o que eu tenho a ver com isso? Na boa? O banheiro de deficientes é para deficientes. A vaga de deficientes é para deficientes e não é sua nem por alguns minutinhos. Ah! A fila preferencial do supermercado é para idosos, gestantes e deficientes. E o assento preferencial também é pra a gente, pomba!
Dois dias depois, o desrespeito aconteceu no metrô de São Paulo. Estava na estação da Luz, o elevador estava apagado e não respondia à minha chamada. Sou cadeirante e preciso mesmo do elevador. Chamei pelo interfone porSEIS VEZES. A pessoa atendia e, logo em seguida desligava, sem falar nada. Então, chamei dois seguranças que foram comigo até o elevador. Fizeram o mesmo. Porém, o funcionário atendeu prontamente! Me senti diminuída e desprezada por ser deficiente física! Por que não atendeu antes? Ah! Esqueci de falar que no local tinha uma câmera onde o funcionário em questão podia ver quem chamava. Registrei queixa na Ouvidoria, mas não creio que alguma coisa muda.
Bom, sei que nunca parei meu carro na vaga destinada a deficientes ou coisa parecida, mas talvez tenha deixado de pensar por que aquele restaurante que tanto amo não tem um cardápio em braille ou mesmo um banheiro com barras ou uma rampinha na entrada? Então, você, meu amigo que está lendo isso, deite com sua cabeça bem leve no travesseiro e, se ainda faz essas pequenas “coisinhas“, deixe de fazer, tá? A gente agradece. 


LAÍS SERRÃO

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